“Gerenciar riscos ocupacionais é ir além do que ‘acontece na maioria das vezes’; é identificar, analisar e tratar de forma estratégica as incertezas que poderiam impactar a saúde e a segurança dos trabalhadores, independentemente da sua frequência e de eventos passados.”
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Quando escrevi essa reflexão, tive como intenção tentar trazer uma mentalidade proativa e estratégica que deve guiar o profissional de segurança do trabalho que busca um processo de gestão mais eficiente. Na prática, é comum vermos planos de ação baseados em indicadores de frequência, como a Taxa de Incidência. Embora esses dados sejam essenciais, confiar exclusivamente neles pode criar uma falsa sensação de controle, já que não consideram eventos que podem ser raros, mas com potencial catastrófico.
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O gerenciamento de riscos é uma disciplina que nos tira da reatividade e nos coloca a pensar no futuro, em possibilidades que vão além do que já ocorreu. Ele exige a integração do conhecimento de toda a organização e o domínio de métodos e processos. Para isso, é fundamental dominar os conceitos e as etapas que o sustentam.
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- A Definição de Risco nas Normas Técnicas
Para gerenciar, é preciso primeiro definir. As principais normas técnicas e regulamentadoras trazem definições complementares que enriquecem nossa compreensão:
- NR 01 (PGR – Programa de Gerenciamento de Riscos): A Norma Regulamentadora define risco ocupacional como a “combinação da probabilidade de ocorrer lesão ou agravo à saúde… e da severidade dessa lesão ou agravo à saúde”. Ou seja, o risco não é o perigo em si, mas a possibilidade de que o perigo se materialize em um dano real.
- ISO 31000 (Gestão de Riscos): Esta norma, mais abrangente, define risco como o “efeito da incerteza nos objetivos”. No contexto de SSO, o objetivo é a proteção da vida e da saúde, e o risco é qualquer desvio que possa comprometer esse objetivo. A ISO 31000 também reconhece que o risco pode ter consequências positivas (oportunidades), embora em SSO o foco seja principalmente nas ameaças.
- ISO 45001 (Sistemas de Gestão de SSO): De forma alinhada à NR-01, a ISO 45001 define risco para a segurança e saúde no trabalho como a “combinação da probabilidade de ocorrência de eventos relacionados ao trabalho e da gravidade das lesões e problemas de saúde ocasionados por eles”.
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- O Desafio dos Eventos de Baixa Probabilidade e Alto Impacto
Uma das falhas mais comuns é focar apenas nos eventos que ocorrem com frequência. No entanto, os riscos mais catastróficos muitas vezes têm uma probabilidade muito baixa de ocorrer, mas um impacto devastador. A utilização de uma matriz de probabilidade e impacto é crucial para identificar e priorizar estes cenários. Riscos com baixa probabilidade, mas altíssimo impacto (como a explosão de um tanque de armazenamento ou o colapso de uma estrutura), podem ser os mais críticos e exigem maior atenção e alocação de recursos preventivos.
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Geralmente, em relação a este tipo de risco, ouvimos frases como “é muito difícil de acontecer isso”, “isso nunca aconteceu” ou “qual a chance de isso ocorrer?”. No entanto, certos eventos considerados potencialmente raros podem se concretizar devido a uma sequência de erros ou falhas em monitoramentos. A história da segurança do trabalho está repleta de exemplos trágicos de acidentes que ocorreram a partir de riscos subestimados ou considerados improváveis.
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- O Fator Humano: Além do Erro Individual
O gerenciamento de riscos eficaz não se limita a eliminar perigos físicos; ele deve incluir a análise aprofundada do fator humano. A “falha humana” raramente é a causa raiz, mas sim um sintoma de problemas sistêmicos. As falhas podem estar ligadas a fatores como falta de atenção, condições ergonômicas inadequadas, ausência de treinamento ou informação, falta de motivação, além de falhas de gestão, como procedimentos pouco claros, problemas de comunicação e a ausência de um monitoramento eficaz.
É fundamental reconhecer que a maior parte dos grandes acidentes é causada por falhas organizacionais, como falhas de projeto, controle de qualidade deficiente ou alocação inadequada de tarefas. Portanto, a prevenção passa por criar uma cultura de segurança robusta, com comunicação aberta, programas de treinamento eficazes e a promoção de um ambiente de confiança.
As organizações e os profissionais precisam entender que a recorrência de um evento não define, por si só, a sua criticidade. Muitos dos acidentes mais graves que ocorreram em ambientes laborais ao longo das últimas décadas não foram provocados por eventos recorrentes, mas por riscos subestimados, não identificados ou considerados improváveis.
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- O Processo de Análise de Incertezas em Cada Operação
A análise de riscos é um processo contínuo e sistemático, conforme a NR 01. Para ir além da análise superficial, devemos entender as incertezas em cada atividade. O processo iterativo de avaliação de riscos, conforme a ISO 31000, envolve a identificação, análise e tratamento dos riscos. E neste processo, precisamos estar cientes de que uma organização é um organismo vivo, onde mudanças sempre vão ocorrer, como aumento de produção, novas máquinas, novos produtos, materiais, pessoas e tecnologias.
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Em cada operação, o profissional de SST deve questionar:
- Identificação: Quais são os perigos presentes e as incertezas que podem desviar dos nossos objetivos de segurança?
- Análise: Qual a probabilidade de um evento perigoso ocorrer e qual seria a severidade do dano? Qual a variação da atividade real em relação ao procedimento padrão?
- Tratamento: Quais medidas de controle são necessárias para eliminar ou mitigar esses riscos?
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Ao adotar essa abordagem, você não estará apenas cumprindo uma norma, mas construindo um sistema de segurança resiliente, que protege os trabalhadores de forma estratégica e abrangente. É preciso ir além do cumprimento legal e cultivar uma cultura onde a incerteza é vista como oportunidade de melhoria, e não como algo a ser ignorado por “não estar no relatório”.
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Gerenciar riscos ocupacionais é mais do que controlar o que é frequente: é antecipar o incerto com estratégia. É entender que segurança real não está apenas nos números do passado, mas na forma como a organização lida com o que ainda não aconteceu — mas pode acontecer.
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Organizações que adotam essa mentalidade estratégica se tornam mais resilientes, reduzem a probabilidade de eventos graves, promovem ambientes mais saudáveis e fortalecem sua cultura de prevenção. Portanto, se quisermos evoluir na gestão de SST, devemos deixar de tratar o risco como estatística e começar a tratá-lo como estratégia. E isso exige que olhemos com seriedade para as incertezas, especialmente para os riscos que ainda não conseguimos ver — mas que estão lá.
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FONTE: https://www.rsdata.com.br/alem-da-frequencia-o-papel-estrategico-do-gerenciamento-de-riscos-ocupacionais/ – Os textos deste post foram compartilhados do site RS DATA cabendo a estes os direitos autorais.
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FONTE FOTO: SEGVIDA
